Memórias

No finalzinho do mês passado fizemos uma visita relâmpago para os meus sogros na Escócia e aconteceu um fato extraordinário naquela visita que me tocou profundamente.
A minha sogra é uma pessoa que guarda tudo. TUDO! Ela tem grande interesse na árvore genealógica da família e mantém registros e fotos de absolutamente tudo.  De vez em quando quando estou por lá ela pega alguma coisa para me mostrar - como álbum de fotos, vídeos de quando ela era solteira e do casamento dela, pedaços do jornal da cidade com fotos do meu marido, quando ele tocava na banda da escola e descobri que ele era um gênio no piano, passando nos exames com honras - a ponto de ir para o jornal.
Nesta última vez, enquanto estávamos assistindo a mais um programa de perguntas-resposta na noite antes de seguirmos viagem ela trouxe uma mala antiga que pertencia à mãe dela. De dentro desta mala tinha uma foto da mãe dela da época que ela era enfermeira na Segunda Guerra Mundial, cartões que eles utilizavam para pegar a comida que era racionalizada, fotos do pai dela. Já me deu um aperto no  coração ver aqueles pedaços de história, porque uma coisa é você ler e ouvir sobre guerra outra bem diferente é enxergar de uma forma tão pessoal, tão próxima de você.
E aí ela pegou um livrinho e disse que tinha sido o tio da avó dela. Era um diário de bordo, escrito durante a jornada entre Glasgow na Escócia até a Nova Zelândia em 1900. EM MIL E NOVECENTOS!!! O livrinho estava bem conservado, mas era difícil ler porque a caligrafia era bem trabalhada, mas fiquei encantada com o que tinha nas mãos. O conteúdo não era algo extradiornário, mas ele contava como era o jantar, com quem falou, como estava o mar... li apenas algumas páginas, mas não pude deixar de ver a última página que era justamente do dia que ele chegou na Nova Zelândia e ele se dizia esperançoso de que a irmã (mãe da vó da minha sogra - acho que é a tataravó do meu esposo??) recebesse o diário de bordo e que ela estivesse bem. A minha sogra disse que ele nunca mais retornou para a Escócia e acho que enviou poucas cartas para a casa.
Pra mim foi algo que tocou fundo no meu coração por milhões de motivos... Nunca que aquele homem iria imaginar que 117 anos depois uma brasileira que de certa forma era agora parente dele estaria lendo o seu livrinho, contando um pedaço da sua vida...
Sempre tive muita vontade de escrever, de contar fatos, sentimentos, de tirar fotos... não para postar em redes sociais, mas para guardar como memórias porque a gente pode não se lembrar disso com frequência, mas assim como os momentos, as pessoas em nossas vidas também são passageiras e a nossa memória falha e muito!!!
Quem é que nunca pegou uma foto antiga e tinha uma pessoa que a gente mal conseguia lembrar o nome? Ou que trouxe uma memória queria de alguém que já não está entre nós ou que simplesmente seguiu um rumo diferente na vida e que a gente nunca mais soube o que aconteceu?
Quando eu era au pair eu mantinha um registro semanal das coisas que eu via, aprendia e descobria aqui nos EUA e dividia com meus amigos e família no Brasil. Era o meu diário de bordo que demorava horas cada semana para ser escrito e que eu parei de escrever no segundo ano aqui porque comecei a perceber que ninguém tinha tempo ou se interessava para ler sobre o que eu vivia aqui.
Parei de escrever os emails semanais, mas continuei um blog pessoal, um diário e hoje, eu fico feliz de ter este registro comigo, até mesmo emails que trocava com amigas cheios de confidência, esperanças e sonhos porque a minha memória é traiçoeira e nem sempre consigo me recordar da forma real que me senti e o que vivi naquela época. As dores e as alegrias podem ser amenizadas ou exageradas em sua proporção e de vez em quando eu leio aqueles emails para me recordar da pessoa que EU mesma era um tempo atrás...
Por isso, continuo persistindo em escrever diário, imprimir fotos e fazer albuns porque sim a internet facilita e muito guardar estas coisas, mas nada como o bom e velho papel, algo concreto para guardar para futuras gerações ou até mesmo para si própria quando a memória dos dias da juventude forem apenas uma névoa na memória...
No fundo queremos ser lembrados e queridos para sempre, por muitos, mas lendo aquele diário eu percebi que o que falam é verdade, que em menos de 100 anos, a maioria de nós seremos apenas mais um ser humano que passou por este mundo e que a existência não é nem lembrada... o que dá um sentimento de humildade e de poder viver o melhor possível e poder fazer o bem para a maior número de pessoas possível porque mais cedo do que imaginamos, seremos apenas um nome, uma vaga memória, um rosto desconhecido num porta-retrato.

Comments

  1. Ola! Nossa, que coisa bacana! Sensacional ter a oportunidade de ter, ler algo assim. A vida e as voltas que o mundo da sao mesmo interessantes. Obrigada pela visita. :)

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    1. Obrigada pela visita também Luana! Realmente foi uma experiência sensacional.

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  2. Sou igual sua sogra, infelizmente, minha família não tem estas memórias e quero muito que Pandinha e nossas gerações futuras possam ter esta oportunidade fantástica que você teve. Que momento incrível deve ter sido folhear as páginas do diário dele e pensar em tudo que conecta este passado ao presente que hoje inclui você! Fantástico!!!

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    1. Eu gosto de guardar coisas também, tento registrar o máximo que posso. Tenho certeza de que o Pandinha terá muitas boas memórias e histórias dos pais maravilhosos que ele tem.

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