As vidas de uma expatriada na América

Durante o tempo em que moro nos Estados Unidos, passei por experiências bem diferentes como expatriada. Se for para colocar status imigratórios eu já fui intercambista (Au Pair), estudante e agora residente permanente. Eu jamais imaginei quando cheguei nesta terra que 7 anos se passariam e eu continuaria aqui como uma imigrante. E não tinha a menor idéia de como o sistema de imigração dos Estados Unidos é enrolado, complicado, subjetivo e lento. Muito lento.
Tem gente que acha que aqui tudo funciona bonitinho, afinal, aqui é os "States", mas basta conversar com alguém que passou pelo processo de imigração neste país pra saber que absolutamente nada é preto no branco. Há muitos, muitos tons de cinza envolvidos e são mais frequentes do que se imagina, por isto que eu não me intrometo em dar opinião sobre o processo imigratório de ninguém. Eu passo as informações que sei, dos processos que eu passei e deixo que a pessoa que está interessada em vir pra cá correr atrás das informações no bom e velho google ou consultar um advogado que pode ajudar melhor do que eu. Porque cada caso realmente é um caso
O que posso afirmar com certeza é que cada experiência é única e por isto eu me irrito profundamente quando vejo em blogs por aí pessoas afirmando com todas as letras do mundo que aqui nos EUA as coisas funcionam assim, assim e assim e que você como expatriado/imigrante terá a vida assim, assim e assado. Acho válido compartilhar experiências, mas é impossível dizer que todo mundo passa por isto ou "aqui é assim" porque não é. Até mesmo as minhas três vidas - como au pair, estudante e residente - foram diferentes, com suas responsabilidades, dificuldades e alegrias também.
Algumas pessoas me perguntam se vale a pena vir tentar a vida aqui nos EUA. Sinceramente, não sei responder esta pergunta e acho que nem devo fazê-la. Quando cheguei aqui em 2007 não tinha intenção de ganhar a vida nos EUA, as coisas foram simplesmente acontecendo. Sair do país com a intenção de mudar-se de uma vez pra cá é algo que eu sinceramente não sei se teria tido coragem.
O que sempre falo para as pessoas que pensam em vir pra cá é para pesquisar bastante sobre o lugar onde se deseja morar, se preparar financeiramente e também psicologicamente para isto. É importante ter um objetivo, porque chegando aqui é muito fácil se deslumbrar com tudo e se "perder". Nem tudo é tão fácil como se parece, por isto esteja preparado para os obstáculos da língua, da cultura, dos custos de vida e principalmente do sistema de saúde americano que apenas agora estou começando a entender. E claro, lidar com a saudade de casa e das pessoas que tanto se ama.
Como intercambista (au pair - babá que trabalha e mora em família americana e tem possibilidade de estudar também) tive a oportunidade de morar em lugares incríveis (em New Jersey perto de New York e em Sausalito ao norte de San Francisco). Tinha conforto e não precisava me preocupar em pagar contas, além das minhas despesas pessoais, passeios, etc. A vida era relativamente boa. Digo relativamente boa porque na minha época o salário era de 139 dólares por semana. Apesar de não ter que pagar contas nenhuma, precisava planejar direitinho os meus gastos para que eu pudesse me divertir viajando, comprando algumas coisas, etc. Consegui economizar e aproveitar relativamente bem durante estes dois anos principalmente porque eu não saía para balada e gostava de fazer programas simples que não gastava muito. O problema de ser au pair é como disse lá em cima,
é morar onde se trabalha. Tive até um bom relacionamento com a primeira família com quem eu morei, mas não tive um relacionamento pessoal muito bom com a segunda, então a convivência era muito difícil pra mim. Era preciso comer muitos sapos, e ter um pouco de "sangue de barata" para poder aguentar os desaforos que acontece no relacionamento patrão-empregado.
Ser estudante nos EUA tem os seus desafios também. Em primeiro lugar estudante internacional sempre paga pelo menos 10x mais caro o curso do que os americanos, tudo porque os nossos créditos são mais caros e há um mínimo para se estudar por semestre (12 créditos) para se manter o visto de estudante. Outra coisa importante é que com o visto de estudante não há a possibilidade de se trabalhar fora do campus da faculdade e quando isto acontece, não pode ser mais do que 20h. Claaaaaro que a não ser que você tenha uma situação financeira muito boa, irá encontrar alguns bicos por fora para poder se sustentar. O problema é conciliar o mundaréu de lição de casa e trabalhos que precisam ser feitos, já que os professores exigem bastante dos alunos porque pra eles, ser estudante é a única obrigação de estudantes universitários. Então além de pagar as contas e pagar o custo da faculdade, é preciso encontrar também um tempinho para ter uma vida normal e socializar. :-). Apesar de estar rodeada de americanos, é muito complicado fazer amizade com eles na faculdade, pelo menos para mim foi difícil pois além da diferença de idade, todos estavam sempre correndo de um lado para outro. Até mesmo aqueles que mantém contato é mais questão de coleguismo por conta dos trabalhos da faculdade, etc. Ser estudante em universidade americana não é difícil como eu sempre digo, mas é algo muito trabalhoso e vai consumir muito do seu tempo, por isto é preciso se dedicar pra não se afogar no meio das tarefas e esquecer de viver.
Por fim, viver como residente permanente é bom porque te dá a liberdade para trabalhar, estudar, viajar, morar onde quiser. E claro, ter a vida de "adulto" por aqui. E como todo adulto há várias responsabilidades, o pagamento das contas, etc. Entrar no mercado de trabalho americano é mais difícil do que se imagina, pelo menos esta é a experiência que eu tive. O mercado de trabalho é super competitivo e é preciso ter boa qualificação, domínio do idioma, experiência e assim como no Brasil, muitas vezes... QI - quem indica. Há outros aspectos da vida de um residente permanente que são comuns a qualquer adulto em qualquer parte do mundo - casamento, filhos, etc. e que muitas vezes tem o fator "complicante" das diferenças culturais.
O que quero dizer com este post é que como expatriato, não importa qual seja o seu status imigratório, sempre haverá obstáculos mas também as suas delícias. O importante é sempre aproveitar da melhor forma possível a fase que se está vivendo e estar preparado para os percalços que podem acontecer no caminho.
Durante a minha estadia aqui conheci muita gente que viveu aqui de forma ilegal. Não posso dar a minha opinião de como é a vida de um imigrante ilegal, porque não passei por esta situação mas posso dizer que a reclamação número 1 de todos é a falta da liberdade e a limitação que a falta de um status imigratório dá. É possível sim trabalhar, comprar casa, carro, matricular filhos nas escolas, etc e ter até mesmo uma vida relativamente "boa" como imigrante ilegal, mas o constante medo de ser descoberto e as limitações dos trabalhos que se pode fazer além de não poder ir visitar a família no Brasil são fatores que pesam muito e que pelo menos pra mim nunca foi uma opção. Viver aqui de forma legal já dá a maior dor de cabeça, imagino como deve ser muito mais difícil o contrário, mas tem gente que vive assim por muitos anos e é feliz. Tudo depende do seu objetivo de vida.

Comments

  1. Querida, me desculpe a ausência aqui. Eu já tinha lido esse post, mas estava sem animo de comentar. Também quero agradecer seu comment lá no blog e dizer que estou bem melhor. A situação é delicada, mas Deus é maior que tudo e tem me dado forças e me guiado em tudo. Muito obrigada, viu?
    Sobre o post, você tem uma história nos EUA bem maior do que eu imaginava e com certeza, por essas três experiências diferentes, conseguiu uma visåo bem ampla sobre o assunto. Imagino que a vida de expatriada não seja tão linda qto a gente pensa, mas você tem garra e boa vontade.
    Beijo grande

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  2. Eliana, eu também não gosto muito desta coisa de preto e branco quando se trata de imigração e principalmente experiências pessoal, mas tem gente que acha que na verdade só tenho má vontade de responder certas perguntas :-( Bjsss

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  3. Adorei a sua experiência, acho que quando a pessoa sai do país de origem, mesmo que seja por apenas alguns meses, ela já avançou muito. No seu caso, 7 anos é mais do que uma vida de histórias e experiências.

    K!

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