Cadê todo mundo?

Quando comecei a planejar a minha vinda para os EUA descobri o maravilhoso mundo dos blogs.
Foi neste mundo que descobri que haviam muitas pessoas que estavam passando pela mesma situação que eu, que entendiam os meus medos, minhas dúvidas e que ajudavam escrevendo sobre suas vidas, experiências e dicas.
Conheci um monte de gente nesta época e algumas pessoas se tornaram amigas de vida real, com as quais ainda mantenho contato fora do mundo virtual. Se não fosse pelo blog eu jamais teria a oportunidade de encontrar estas pessoas maravilhosas!
Infelizmente ao longo do tempo muitos blogs incríveis foram fechados e abandonados. Blogs que tinham conteúdos incríveis e relevantes começaram a se tornar extremamente difíceis de navegar por conta dos milhões de banners e propagandas ou então voltou-se completamente para a monetização e perdeu totalmente sua essência.
E a comunidade gostosa de gente interessante cheia de idéias, dicas e experiências virou quase um campo de batalha ou uma casa abandonada. Sei que sou culpada em não escrever com tanta frequência e acho que às vezes eu fico muito preocupada em escrever algo que alguém vai gostar ao invés de simplesmente dividir um pouco sobre as minhas idéias, perspectivas, dicas como nos velhos tempos.
O crescimento e a popularidade dos vlogs também está afetando os blogs, o que acho uma pena. Eu não tenho paciência de ver vídeos e às vezes é muito mais fácil sentar em algum lugar e ler um blog do que tentar assistir um vídeo.
Outra coisa que acho muito melhor nos blogs é peneirar informações que se busca porque muitas vezes eu tentei assistir um vlog por causa do título e a pessoa falou falou falou e não disse nada do que o título indicava, o que acabou me deixando muito irritada!
Espero que os blogs não entrem em extinção e vou fazer a minha parte para que o meu espaço sempre esteja atualizado também!

Endurance


Demorei uns 4 meses pra terminar de ler este livro mas valeu a pena. Não queria ler correndo pra saber qual era o final da história - afinal, eu já sabia o final dela - mas queria ler com cuidado saboreando cada detalhe, cada informação.
O astronauta americano Scott Kelly passou um ano na Estação Internacional Espacial num projeto da Nasa com a Agência Espacial Russa chamada "Um ano no espaço". Um cosmonauta russo Mikhail Kornienko também passou o mesmo tempo com Scott na estação espacial.
Bem, eu sou fascinada por astronomia - quando eu era criança eu tinha certeza de que seria uma astronauta um dia - então eu gostei muito do livro.
Scott relata sua jornada pessoal de superação - de um aluno que odiava estudar e era bem mais ou menos a um estudante dedicado para alcançar o seu sonho de ser piloto de teste da aeronáutica - mas também um pouco de como é a rotina dos habitantes da estação espacial, o que sentem, comem, como se preparam para se tornarem astronauta e também suas batalhas na vida pessoal enquanto sua carreira na NASA se desenrola.
Depois de ler alguns relatos do livro fui até o youtube para encontrar vídeos da estação espacial, do space shuttle e rever alguns momentos que ele deu entrevistas da estação espacial.
Eu acompanhei o astronauta Scott pelo Twitter enquanto ele estava lá na missão de um ano no espaço, adorava as fotos que ele publicava e acompanhei pela NASA TV online o retorno dele para a Terra, então a leitura do livro foi muito interessante.
O livro matou a minha curiosidade não apenas sobre a preparação e vida de um astronauta, mas também me deu motivação para que eu buscasse os meus próprios sonhos mesmo que neste momento eles pareçam estar tão distantes...
Valeu Scott!



Então 11 anos...

ONZE ANOS se passaram desde o dia que saí do Brasil para fazer intercâmbio.
Morrendo de medo e de ansiedade e apesar da torcida do contra e da torcida "daqui-a-um-mês-você-volta-com-o-rabinho-entre-as-pernas" eu parti pro mundo em busca do MEU sonho.
Pra decepção de muitos e pra minha alegria os sonhos se tornaram realidade. Cumpri com o tempo de intercâmbio e agarrei oportunidades de estudo e trabalho.  E a vida aconteceu, o coração bateu mais forte e fiquei.
Às vezes eu tento imaginar como seria a minha vida se eu nunca tivesse partido ou se tivesse retornado após o intercâmbio. Melhor ou pior não sei, mas com certeza a minha vida seria diferente.
Estou vivendo um momento estranho agora. Sinto-me como se estivesse presa entre dois mundos dos quais não pertenço 100%. Talvez esta seja a sina de expatriada.
Olhando as fotos destes últimos 11 anos, relembrei de tantas pessoas que passaram pela minha vida. Tantos lugares que conheci, tantas coisas que fiz. Tantas lutas e conquistas.
Hoje eu precisava olhar para trás. Para relembrar a jornada. Para entender como cheguei e porque estou aqui. Sentir orgulho de mim mesma.
E assim, celebrando estes 11 anos de Estados Unidos - o sonho que um dia pareceu impossível de se tornar realidade -  recarrego as energias, encho o coração de fé e arregaço as mangas para realizar novos sonhos.

Ah, se eu pudesse...

Se eu pudesse diria que não, não está tudo bem comigo.
Se eu pudesse ser sincera diria que me sinto sozinha,
Que estou perdida, cheia de medos, frustrações.
Que apesar do Sol brilhar lá fora, uma nuvem negra me envolve
Me aperta e me sufoca, paralisando-me diante da vida.
Se eu pudesse, pediria por favor, não me dê conselhos de como viver minha vida
E não fique enumerando todas as coisas pelas quais deveria agradecer todos os dias.
Queria te dizer que as conheço muito bem e são estas coisas que me dão forças
Para levantar todos os dias e seguir em frente.
Se pudesse ser sincera, diria o quanto me sinto presa entre dois mundos.
O mundo das possibilidades que não consigo agarrar
E o mundo do que um dia eu fui e o que sonhei ser.
Se pudesse diria pra você parar de dizer que é meu amigo,
E que sempre posso contar contigo para o que der e vier
Porque você não me conhece há anos e no momento que mais preciso
Você não estava lá com ouvidos atentos, com compaixão e empatia.
Estou cansada, mas sigo lutando.
Porque sei que um dia essa batalha irei vencer.
Enquanto continuo respondendo está tudo bem, graças a Deus.



Do Japão para a Índia

Acho que não poderíamos ter feito uma viagem tão, mas tão contraditória como ir do Japão para a Índia. Foi uma viagem extremamente cansativa, mas que vai ficar na memória para sempre - tanto pelas coisas boas como pelas coisas ruins! Depois que voltei para casa com o relógio biológico totalmente zoado e o resfriado - que ainda não passou, demorou um pouco para digerir tudo o que vivenciei nos últimos dias de 2017 e acho que agora dá para escrever com calma as minhas experiências nestes dois lugares incríveis.

Japão / Tokyo

A viagem para o Japão foi muito, muito breve. Não conseguimos nem ver muita coisa em Tokyo, mas deu para ter um gostinho da cidade.
Fiquei muito emocionada  quando o avião pousou em Narita. O aeroporto é muito moderno e super organizado. Achei engraçado que um dos fiscais da fila de imigração viu meu passaporte e disse: "Oi Brasileira!". Meu marido ficou impressionado e eu lembrei que muitos, muitos brasileiros migram para o Japão e a nossa presença por lá é significativa, ou era pelo menos.
Uma coisa que percebi é que o povo japonês adora placas de sinalização. Existem placas com instruções, desenhos, localização, setas. Mesmo assim, demorei um pouco para me situar porque as placas estão - obviamente - em japonês e os sinais em inglês as letras são menores e mais difícil de enxergar.
Do aeroporto pegamos o trem Narita Express que nos deixou na estação de trem perto do hotel. Nesta hora dei graças a Deus que o meu marido é um expert em trens e já viajou muitas vezes para o Japão porque além do sono e cansaço, eu não tinha a menor idéia de onde estava e para onde deveria ir.
O hotel foi bem localizado próximo da estação Shinagawa de trem. Um ônibus de graça levava a gente da estação para o hotel, o problema foi que a placa do ônibus tinha o nome do hotel em japonês, ou seja, a gente ficou 30 minutos numa temperatura quase abaixo de zero esperando o ônibus que não chegava - e que passou por nós 3 vezes - até que uma boa alma viu a gente com as malas e disse que aquele era o ônibus certo.
A gente praticamente saía do hotel de manhã depois de tomar um belo café da manhã e batia perna até cansar ou começar a dar sono. Fiquei impressionada com o sistema de transporte de Tokyo que apesar de ser super confuso, funciona bem. Meu marido disse que as sinalizações das estações e trens melhoraram muito - agora tem os nomes em inglês - e eu só fiquei pensando no sufoco que os milhões de turistas vão passar indo pra Tokyo na época das Olimpíadas. A melhor forma de navegar pela cidade é usar o Google Maps ou o Apple Maps, que dá corretamente o nome dos trens, onde desce, onde faz conexão e muito importante - qual a saída da estação utilizar porque cada estação tem milhões de saídas.

Não tinha a menor idéia de onde ir


Durante a nossa estadia na cidade fez muito, muito frio - o que significa que qualquer lugar fechado estava muito muito calor por causa dos aquecedores, mas graças a Deus não choveu nenhum dia então deu para aproveitar bastante.
Fomos visitar o Museu do Trem (para alegria do meu marido), passeamos também na região de Asakusa para visitar o templo budista mais antigo da cidade e observar a feirinha em frente ao templo. Também fomos olhar Tokyo do observatório do prédio do governo no centro da cidade, porque eu queria tentar ver o monte Fuji, mas não queria pegar filas enormes ou pagar muito por isso. O  dia em que fomos lá estava claro e tivemos uma vista maravilhosa do Monte Fuji e acho que foi naquele momento que caiu realmente a ficha de que estava no Japão.
Pavilhão principal do Museu do Trem em Tokyo

Olá Monte Fuji!

A noite fomos visitar aquele famoso cruzamento da cidade, e claro que atravessamos umas duas ou três vezes para desespero do meu marido. Encontramos um prédio que vendia records e entramos apenas com a intenção de olhar, mas ambos compramos CDs - Eu a edição limitada do CD da Adele 21 e o meu marido a caixa comemorativa do Elton John.
O passeio que mais gostei da cidade foi sem dúvida ter ido até Odaiba, uma ilha artificial anexada à cidade através de uma ponte chamada Rainbow Bridge (a ponte é iluminada com as cores do arco-íris à noite). Esse é um local cheio de entretenimento, shopping, restaurantes e parque. Eu queria ver a estátua gigante de um robô chamado Gundan e também olhar a réplica da estátua da liberdade que ficava no parque à beira mar e com uma vista maravilhosa da cidade. Acabamos caminhando por lá e vimos o mais bonito entardecer da viagem, sentamos para tomar café e admirar a paisagem.

Vista de Tokyo de Odaiba

Porque a gente comia muito bem no café da manhã, comíamos besteirinhas durante o dia e a noite pegamos alguma coisa na estação do trem ou comemos no restaurante do hotel. Não sou fã de comida japonesa crua - sushi, sashimi - mas gosto muito de ramen e curry. O meu problema era encontrar esses pratos sem carne de porco porque não gosto muito e a maioria da comida sempre vinha com carne de porco. Já estava triste porque não iria encontrar ramen quando encontrei e pude saborear um delicioso Ramen antes de deixar o Japão.

Adoro olhar as comidas de plástico nas vitrines em Tokyo

A viagem passou correndo e quando a gente percebeu já era hora de seguir caminho para Delhi.

Índia - New Delhi / Agra / Jaipur

O choque cultural começou quando a porta do avião abriu no aeroporto de New Delhi. Era 1 hora da manhã quando chegamos e o aeroporto estava coberto por uma névoa, que na verdade não era névoa mas pura poluição! Tínhamos sido alertados para levarmos máscaras com filtros para nos proteger porque o ar da cidade estava com níveis de poluição perigoso para a saúde, já que alguns agricultores ao norte estavam fazendo queimadas para preparar o solo para plantio e toda a fumaça estava indo pra New Delhi.
A primeira impressão era que tudo era tons de bege, marrom e laranja. A imigração não foi uma das mais eficientes, tivemos que trocar de fila 3 vezes porque cada um dava uma informação diferente de onde deveríamos ir. Ali nós percebemos que teríamos que ter muita paciência e bom humor para aguentarmos os dias que ficaríamos por lá, porque tudo na Índia tem as suas próprias regras e também o seu próprio tempo.
Chegar num lugar desconhecido à noite nunca é uma experiência agradável porque a gente nunca sabe o que encontrar. Acabamos ficando num hotel próximo do aeroporto porque era muito tarde para seguirmos viagem no meio da cidade - além de ter sido alertados que não era muito seguro.
Ao chegar no hotel, o carro é revistado para poder entrar pelos portões que dá acesso a entrada do hotel. A gente passa pelo raio-x e nossas malas são levadas para ser escaneadas e só a vemos quando entramos no lobby do hotel. Eu fiquei impressionada com tamanha segurança, mas meu marido disse que medidas de segurança começaram a apertar em hotéis depois que um hotel em Mumbai sofreu um atentado com bomba em 2008. Passamos por raio-x todas as vezes que entrávamos do hotel em todos os hotéis que ficamos.
A nossa aventura realmente começou no dia seguinte quando nossa família - que tinha chegado no dia anterior foi nos buscar no hotel para seguirmos viagem para onde ficaríamos 3 dias em Delhi e onde a recepção do casamento aconteceria. A gente mal sabia o que estava por vir...
Antes de viajar para a Índia pesquisei muito sobre costumes,  sobre os lugares que iríamos e lembro que uma frase ficou muito marcada comigo: "Você não visita a Índia, você vive a experiência de estar na Índia". Isso é a mais pura verdade. Daqui por diante vou falar dos aspectos da Índia por sessões porque senão o relato ficaria extremamente longo e poderia deixar de escapar os meus pensamentos sobre esse lugar fascinante.

Poluição / Cheiro
O que haviam falado sobre a poluição é verdade.  O ar do lugar tinha gosto. Você tinha a sensação de que podia tocar o ar, aquele ar marrom. A gente não vê o azul do céu, é um alaranjado constante, principalmente no meio de Delhi. Eu e meu marido usamos a máscara - não tanto quanto deveríamos por vergonha, mas ninguém do restante da família usou. Resultado: todos sem exceção voltaram para casa com problemas respiratórios decorrentes da poluição. Portanto, se for pra lá use máscara!
Achei que a Índia iria feder muito mais. Talvez por conta da poluição e também por ser inverno o cheiro não era tão insuportável. Digo isso porque quando a gente saiu do centro de Delhi em direção ao interior, víamos ao longo de muros e de quintais pilhas de discos amontoados e quando perguntei para a minha prima indiana o que era aquilo ela falou que era esterco de vaca! Eles modelavam o esterco em discos e depois utilizavam como combustível para cozinhar - não todas as pessoas, mas as mais pobres. Meu fiquei imaginando aquele monte de esterco ao céu aberto no calor de 45C!

Esterco secando para virar combustível 

A gente passou por vários lixões e o cheiro lá era insuportável, mas no geral - e com o uso de máscara com filtro - o cheiro não era tão ruim.

Trânsito
Jurei pra mim mesma que nunca mais iria reclamar de trânsito em lugar nenhum. Simplesmente não há ordem e as linhas das ruas e avenidas são apenas sugestões que ninguém obedece. Se tem espaço, carros e tuk-tuks (aquelas motinhos de 3 rodas) se enfiam. Fora as buzinas. CONSTANTEMENTE. É ensurdecedor e constante! Engraçado é que de alguma o caos forma funciona e o trânsito flui. Além dos carros, tuk-tuks e caminhões,  elefantes e vacas transitando pelas ruas junto com os pedestres atravessando a rua. No meio de New Delhi não há animais nas ruas, mas saindo da cidade a presença dos mesmos é constante!
Ninguém usa cinto de segurança a não ser os passageiros da frente e num carro sempre cabe mais do que 5 pessoas- e nos tuk-tuks também! Um dia nós fomos para o centro de New Delhi para achar uma Starbucks - eu queria comprar uma caneca para a minha coleção - e achar um restaurante para almoçarmos e experimentamos o perigo e a diversão que é atravessar uma avenida na Índia! A gente achou - por sorte! - um cruzamento com semáforo e fomos que fomos. Depois deste primeiro cruzamento tivemos que cruzar ruas menores, e desta vez fomos com a cara e a coragem. O segredo é quando surgir uma brecha vá e não páre. Os tuk-tuk e carros desviam de você, por nada deste mundo hesite no meio da rua, continue caminhando! Imagina 8 pessoas - incluindo 4 idosos - cruzando a rua no meio da cidade! A gente falou que deveríamos ganhar um troféu de "sobrevivemos cruzar ruas em New Delhi".

Pequeno exemplo do trânsito em Delhi


Sujeira / Pobreza - Limpeza / Luxo
Lemos muito e ouvimos muito falar sobre a sujeira e pobreza que existe na Índia. E ela existe. Infinitamente maior do que imaginamos. Há lixo EM TODO LUGAR. No meio da cidade, no meio da rua, entre as casa, entre o mercado a céu aberto. E no meio do lixo há vacas procurando comida, crianças brincando. Choca. E muito. E da mais aperto no coração ainda quando saímos do caos das ruas da cidade e entramos em hotéis para os turistas, cheios de luxo. Ou quando passamos por um shopping center com lojas de marcas famosas. É uma desigualdade social muito grande por lá. A gente sempre tem em mente aqueles pobres indianos mas há muita gente rica na Índia. Podres de rico. É aquele velho problema da corrupção e poucas pessoas segurando poder e dinheiro e mantendo a situação de pobreza para uma grande parte da população.
Confesso que o tempo todo que estive na Índia me senti muito incomodada e desconfortável. Enquanto estava olhando a beleza do país, vivendo a Índia com sua beleza e observando como espectadora os diversos problemas, no final do dia ia para o meu hotel confortável e sabia que dali alguns dias eu iria pegar o avião e deixar tudo aquilo para trás, enquanto muitas pessoas jamais irão sair daquela vida de pobreza.
O interessante é observar que a maioria tem expressão sofrida, mas também expressa felicidade e muita espiritualidade. Pra mim ainda é muito difícil expressar o que senti vendo tanta pobreza por lá, é algo que nunca vou esquecer.
Vista da janela do hotel "5 estrelas" em Agra, próximo ao Taj Mahal

Perguntei para a minha prima o que ela achava das infinitas ONGs que tentam ajudar a aliviar a pobreza na Índia e o que os indianos pensavam dos estrangeiros que vinham para ajudar. Ela falou que é um assunto muito complexo e que é um band-aid para um problema muito sério. Ela disse que infelizmente muitas ONGs não são tão bem intencionadas assim e que acabam usando a desculpa de ajudar e servem como um canal para lavagem de dinheiro e corrupção e que muitas pessoas vão para a Índia ajudar para se sentirem bem consigo mesmas, mas que a longo prazo não estão ajudando mesmo as pessoas. É um assunto muito complexo que gostaria apenas de deixar aqui para reflexão.

Os animais - vacas, camelos, elefantes, cachorros, macacos
Há animais soltos por todo lugar. Vacas - que são sagradas, porcos, cachorros, camelos, elefantes. Ás vezes a gente não acredita nos nossos próprios olhos quando os vê entre os carros. Perguntei pra minha prima sobre as vacas se elas pertenciam a alguém e ela disse para minha surpresa que elas tem sim donos, mas que muitos não tem o que alimenta-las então acabam soltando durante o dia para elas acharem comida onde podem e essas pessoas tiram leite das mesmas para alimento. Ela falou que o governo está tentando combater isso porque infelizmente muitas vacas estão ficando doentes por comer plástico dos lixos, então está tendo uma campanha para recolher restos orgânicos das casas das pessoas para alimentar as vacas. Ela falou também que durante a noite uma pessoa as recolhe e as levam para um lugar seguro para dormir. Ela não soube dizer o que eles fazem com elas quando elas morrem.
Vi camelos sendo usados para transporte, mas fiquei morrendo de dó de ver elefantes caminhando pela estrada pela manhã ou a noite (depois de um dia de trabalho) principalmente na cidade de Jaipur, onde há muitos lugares onde os turistas vão para montar em elefantes. Em uma das atrações da cidade, o Amber Fort há a opção de subir a montanha montada no elefante, mas acho isso cruel com os animais. Por mais que os tratadores digam que eles são bem cuidados, isso não é lugar de elefante! Tenho muita vontade de um dia poder vê-los em seu habit natural, mas jamais teria coragem de pagar para alimentar, dar banho ou montar em um porque isso só acaba incentivando mais e mais a prática de manter-los em cativeiro.
Elefantes na estrada em Jaipur

Cachorro abandonado tem aos montes também, mas eu não lembro de ter visto gatinhos.
Outro animal selvagem que vi aos montes eram macacos. Não queria de jeito nenhum chegar perto, porque eles não tinham uma cara muito amigável, sabe-se Deus que tipo de doença carregam e também porque são muito imprevisíveis e atacam mesmo as pessoas.
Macacos no Taj Mahal

Comida
A pergunta que mais me fizeram antes e depois da viagem foi sobre a comida na Índia. Era também o tópico que estava me deixando mais preocupada porque é muito, muito comum pessoas que visitam o país sofrerem de "Delhi belly" ou seja problemas gastrointestinais por conta de intoxicação alimentar.
Quando digo que não tive nenhum problema com a comida lá as pessoas ficam surpresas, mas é verdade. Em primeiro lugar eu AMOOOOO comida indiana e já era familiarizada com alguns pratos e tive a oportunidade de experimentar muita coisa. Comi muitos pratos vegetarianos - a família da minha prima é vegetariana, mas há tanta coisa gostosa pra comer que sinceramente carne não fez falta. Principalmente porque comemos muito paneer (um queijo tipo coalho cortado em quadrados e que faz parte de curries deliciosos). Tem uma variedade enorme de pães para acompanhar com os curries, que para a minha surpresa não eram tão apimentados como eu imaginei que seria. A gente comia comida indiana no café da manhã, almoço e janta! É na verdade a comida mais segura para comer porque tudo é cozido e servido bem quente! Quando comíamos em restaurante e havia opção de frango assado ou curry com frango a gente comia sem problema nenhum.
O que evitei o tempo inteiro foram comidas não cozidas - então nada de salada ou frutas, ou comidas de buffet - que não estavam muito quentes.
Jantar especial em Jaipur chamado Thali - um pouco de cada coisa - estava uma delícia

Quando a gente viajou entre New Delhi e Agra (3 horas de carro) e Agra para Jaipur (7 horas de carro) a gente parou em restaurantes na estrada, mas eu preferi não arriscar e comemos os salgadinhos, biscoitos e lanchinhos que levamos de casa pra lá. Nós sabíamos que iríamos passar muitas horas na estrada e era o nosso backup caso não encontrássemos algo para comer. A nossa família deu risada, mas no fim todos acabaram compartilhando dos lanches também.
Água a gente só bebia de garrafa e sempre verificava se estava realmente lacrada. Alguns de nossa família foram mais aventureiros e até comeram algumas frutas, mas todos seguiram mais ou menos a mesma regra e graças a Deus nenhum de nós sofremos com "Delhi belly".
Confesso que depois de uma semana a primeira comida que comi quando cheguei no Japão para fazer a conexão foi um hambúrguer!

Higiene / Banheiro
A água da Índia não é segura para beber e tomamos precauções extras para não ficarmos doentes como utilizar apenas água mineral para escovarmos os dentes também. Todos estavam munidos de álcool gel e sempre utilizávamos antes de comer e depois de ir ao banheiro.
Encontramos banheiros em todos restaurantes e pontos turísticos. Nos pontos turísticos tinha que pegar uma pequena taxa para entrar e às vezes tinha uma pessoa lá dentro dando papel higiênico pra você (em troca de gorjeta). A dica que dou é sempre tenha na sua bolsa rolo de papel higiênico ou lencinho de papel porque nestes lugares raramente tem papel - e eu não ia usar um papel que outra pessoa tocou né? Os banheiros são usáveis e a maioria tem vaso sanitário. Só aconteceu uma vez da gente ir a um banheiro que só tinha o buraco pra agachar e fazer as necessidades. Porque estava sempre com papel e álcool gel, não tive maiores problemas.
Achei interessante que em todos os banheiros existe uma mangueira do lado do vaso sanitário porque como de costume, algumas pessoas não usam papel higiênico, lavam o que tem que lavar com agua e a mão esquerda, por isso quando for comer evite usar a mão esquerda ou pegar coisas com a mão esquerda.
Nos restaurantes que comemos tinha talheres, mas algumas comidas a gente usava a mão mesmo. Por isso a importância de ter sempre álcool gel consigo. Além dos cuidados com a comida, o uso constante do álcool gel manteve a gente livre de doenças.

Roupas
Antes de viajar estava preocupada se as roupas que estava levando seriam adequadas para a Índia. Apesar de ser inverno as temperaturas giravam em torno de 25C durante o dia e esfriava um pouco a noite. O problema maior era saber se eu tinha roupas modestas o suficiente para um país tão conservador. Acho que as roupas que levei foram mais do que adequadas - jeans, camiseta de manga cumprida e sempre usava um encharpe/lenço ao redor do pescoço que poderia ser jogado como um xale. As mulheres indianas usam e muito o sari e também batas com calça jeans, mas em Delhi muitas usam camisetas, calça jeans normais. Vi alguns estrangeiros usando regatas e shortinhos, mas sinceramente eu não aconselharia primeiro porque as pessoas encaram você pelo simples fato de você ser "diferente". E num país tão conservador não ia querer chamar mais atenção ainda. Engraçado que da mesma forma como a gente achava tudo diferente e tirava fotos das pessoas, ruas, vi muitas pessoas tirando fotos da gente também. As crianças sempre mais desinibidas, davam tcham, falavam oi e caiam na gargalhada.
Indian woman walking about - for them it was cold!
Gorjeta / A "taxa do estrangeiro"
Uma coisa que me irritou extremamente na Índia é a questão da gorjeta. Em todo lugar sempre tinha alguém pedindo gorjeta por um serviço prestado, informação dada, favor feito. Algumas coisas é cortesia dar gorjeta como restaurante, o motorista da van, o guia turístico. Mas a moça que entrega papel higiênico pra você no banheiro, alguém que te dá informação de onde o banheiro está, o cara que pega a sua mala sem você pedir. Chegou uma hora que eu não tinha mais notas pequenas e comecei a ser a "mal-educada" porque não dava mais gorjetas.
Um sentimento terrível é que você está sendo "roubado" ou "enganado" o tempo inteiro com relação a preços. Em todos os pontos turísticos há dois preços para a entrada: indianos e estrangeiros. Nós pagamos a "taxa para estrangeiros" o que significa é que pagamos sempre mais porque somos estrangeiros. A entrada do Taj Mahal por exemplo, para estrangeiro são 1000 rúpias, o equivalente a 10 dólares mais ou menos enquanto um indiano paga 40 rúpias para entrar mais ou menos 40 centavos! E em todas as lojas que não tinha preço marcado o preço dado pra gente era sempre maior - muito maior! Por isso é importante sempre pechinchar - e mesmo assim você vai acabar pagando mais provavelmente. Apesar da minha prima ser indiana e poder negociar em hindi o preço, eu fiquei sem vontade de olhar coisas para comprar e acabei nem comprando uns souvenirs que queria muito.

O casamento
O primo do meu marido já havia oficialmente casado com a esposa indiana em julho do ano passado, mas como nem toda a família dela pôde ir para o Canadá, a família dela organizou uma festa para celebrar a união. A principio eu achei que teria aquele casamento com toda a pompa e circunstância, só fiquei sabendo que era uma recepção quando cheguei la e pude conversar melhor com a minha prima (falo minha prima pra ficar melhor de escrever do que colocar o nome dela ou dizer a esposa do primo do meu marido - que no final das contas é prima mesmo! hehe). A princípio eu queria muito comprar uma roupa tradicional, mas chegando apenas 2 dias antes da festa, decidi não arriscar e comprei um vestido que até tinha uns toques indianos pela internet -e me deu a maior dor de cabeça porque tive que mandar para a costureira consertar depois. Depois eu meio que me arrependi porque eles faziam vestidos lindos sob medidas em menos de 24h, mas a gente estava com um horário de atividades tão apertado, não queria abrir mão de passeios por conta de um vestido!
Mesmo sendo apenas a festa de celebração teve toda uma preparação e a gente participou de uma tradição onde a noiva e a família dela faz aquelas tatuagens de henna nas mãos e braços. Fiquei super feliz em participar mas na hora faltou coragem de fazer o braço inteiro - como a noiva fez - e escolhemos -eu, mãe e tia do noivo e mãe da noiva - um mesmo desenho para as palmas das mãos e fizemos desenhos diferentes nas costas das mãos. Foi uma manhã muito divertida, com muita risada. Eu nunca imaginei que eles fizessem aquela tatuagem elaborada tão rápido - 15 minutos e as duas mãos estavam prontas, mas dois rapazes fazia um cada mão. O problema foi esperar secar 2 horas sem poder fazer muita coisa! Depois eles passam um óleo pra cor ficar mais viva e mais 30 minutos você tira o excesso e o desenho fica na sua mão. Primeiro a cor fica um alaranjado, mas com o passar dos dias fica mais escura. A minha tatuagem durou 1 semana, até começar a desaparecer aos poucos!
Esperando a henna secar
No horário marcado para o início da festa só nós estávamos lá no horário combinado,  os outros convidados só chegaram horas depois e de pouquinho em pouquinho! Foi uma festa bem legal, com musica ao vivo, boa comida e muita conversa.
Foi engraçado que a gente estava numa roda conversando e de repente a roda começou a dançar do nada e entrei no embalo! Ainda bem que a minha família entrou na dança também, acho que deve ter um monte de vídeos pela internet da gente dançando por aí. Todos foram muito simpáticos e vieram com muita curiosidade conversar conosco. Foi sem dúvida uma das melhores festas que já participei na vida.

Nunca me diverti tanto numa festa!
Passeios
Como havia dito anteriormente, o tour foi programado pela minha prima e a família dela. Estava bem nervosa com o planejamento porque às vezes você tem seus gostos e preferências de passeios, mas como estava num grupo as coisas tinham que ir de acordo com o gosto e passo de todos. 7 dias não foram nada para explorar os lugares onde passamos. Visitamos poucas atrações em Delhi, em Agra fomos ver o Taj Mahal e o Agra Fort e em Jaipur fomos apenas no Amber Fort e no City Palace. Tinha muita, mas muita coisa para ver e pouco tempo. Infelizmente o trânsito não ajudava na locomoção e acabávamos ficando muito cansados para nos locomover de um lugar para o outro.
Acho que como parte do pacote os guias sempre tentavam empurrar a gente pra uma determinada loja ou fábrica com preços incríveis e produtos autênticos o que acabou nos irritando um pouco e tirava um tempo do dia precioso para passearmos. Como não estávamos interessados e não comprávamos nada o guia ficava meio injuriado e depois ficava meio de mau humor e má vontade para mostrar os outros lugares. Você pode visitar muitos lugares mais sossegado sem a ajuda de um guia, mas confesso que as vezes ajudou bastante ter um guia para nos ajudar a navegar nas filas de entrada que era uma bagunça sem fim. Primeiro porque tem fila para indianos e estrangeiros, mas depois a fila divide novamente entre homens e mulheres porque é preciso fazer revista e somente mulheres podem revistar mulheres - aliás, em todo lugar há separação entre mulheres e homens na segurança, inclusive nos aeroportos, portanto é importante cada um ter o seu ticket para entrar nos lugares.
A minha maior frustração com o guia foi quando fomos visitar o Taj Mahal, que era a atração esperada por todos e que o guia saiu praticamente correndo com a gente pelo jardim, enfiou a gente no meio da muvuca pra entrar dentro do Taj no escuro - já estava escurecendo - e foi a experiência mais agonizante e aterrorizante da viagem. Era tanta gente espremida num lugar pequeno e escuro que dava medo de alguém entrar em pânico e saísse pisoteando uma a outra. Mas graças a Deus nada de ruim aconteceu e foi uma experiência que pudemos vivenciar juntos, como família, ver aquele monumento lindo que nenhuma foto ou vídeo será capaz de capturar.
Vista do Taj Mahal ao entrar no East Gate
Apesar de todos os pesares, faria essa viagem novamente sem pestanejar, foi uma aventura inesquecível e que ficará para sempre na memória. Quando estávamos retornando para Delhi de Jaipur, resolvemos pegar um vôo de 45 minutos entre as cidades já que à noite iríamos iniciar o nosso retorno para casa.
Lá no aeroporto encontramos um casal de brasileiros viajando com duas filhas e a menina quase caiu para trás quando eu disse pra ela em português que conhecia a música que ela estava cantando - o hino nacional. A partir dali começamos a conversar um pouco e foi interessante ouvir a opinião de outros brasileiros sobre a Índia.
Nós concordamos que apesar da pobreza e da sujeira, eu não me senti insegura caminhando ou passeando pelos lugares turísticos. Claro que sempre precisamos ficar atentos porque há muito trombadinha em todo lugar - no meio da muvuca do Taj alguém colocou a mão no bolso do meu marido - mas confesso que me senti muito mais tranquila caminhando por lá do que em São Paulo.
O casal mora aqui no Colorado, mas é do Rio de Janeiro, ele começou a viajar um pouco dizendo que a Índia é melhor do que o Brasil e aí eu acho que ele já começou a viajar na maionese. É muito difícil fazer comparação entre os dois países com seus problemas tão complexos de pobreza e corrupção, mas é inegável que há muitas similaridades entre os dois tanto positivas como negativas.
Posso dizer que fui e experimentei um pouco o que a Índia tem a oferecer, mas saí de lá com muita vontade de retornar - ir novamente no Taj! - e conhecer outros lugares, as regiões montanhosas do Himalais, Goa. Não sei quando terei novamente oportunidade, mas espero que um dia possa retornar e vivenciar um pouco mais a inesquecível e incrível Índia.

Recomeço

"1 de janeiro. Ano novo, vida nova. Este ano será diferente e vou tirar do papel as 2.346.864.964 idéias e planos para a minha vida. Vou emagrecer, ter mais saúde, ser mais alegre, colocar a minha vida em ordem."
Esta era a forma que eu recebia o novo ano, mas este ano as coisas estão um pouco diferentes. Talvez porque agora tenha a maturidade suficiente para saber que virar o ano no calendário não me dá super poderes para me tornar uma pessoa diferente. É preciso mudar atitudes para se ter uma vida nova, resultados novos. É preciso começar para poder chegar à algum lugar. E é justamente aí que o bicho pega.
Assustei-me quando olhei para o calendário e vi que já é dia 9 de janeiro. Nos primeiros dias do ano estava lutando para colocar o relógio biológico em ordem, já que o fuso horário de 13h30min da Índia pra cá bagunçou todo o meu ciclo de fome e sono. Quando as coisas começaram a entrar nos eixos, bum, fiquei doente. Achei melhor não esperar e fui no consultório do meu médico e respirei um pouco mais aliviada porque era apenas um resfriado forte e não algo mais sério como a gripe que está assolando por aqui.
Então estou aqui esperando este resfriado passar e eu recuperar energia para poder "começar o ano" e escrever sobre a viagem ao Japão e Índia.
Por hoje é só pessoal.