Monday, December 5, 2016

O maior feito da minha vida

A minha professora de estatística teve uma ideia genial para a lista de chamada que assinamos todos os dias. Ao lado do nosso nome ela escreve uma pergunta do dia que varia todos os dias. Geralmente eu respondo - é facultativo fazê-lo - e confesso que às vezes acabo me distraindo lendo as respostas dos colegas dependendo da pergunta. Hoje foi o dia que mais me distrai, confesso.
Ela perguntou qual foi o seu maior feito na vida até o momento. Li diversas respostas e confesso que fiquei sem saber o que escrever já que poderia ter colocado várias respostas. Escrevi que foi ter viajado para vários lugares do mundo, mas não creio que este foi o maior depois de pensar um pouco sobre o assunto.
O que mais me chamou a atenção em relação às respostas dos meus colegas é que haviam coisas extraordinárias como também coisas bem simples. Esse tipo de pergunta invoca respostas bem diferentes e que nenhuma delas deve ser considerada melhor ou pior porque muitas vezes pequenas coisas que não damos muita importância são feitos extraordinário mesmo que não apareçam na televisão ou você ganhe um prêmio por isso.
Pois bem, já devo ter falado sobre isso mais de uma vez aqui mas acredito que o maior feito da minha vida foi simplesmente acreditar no meu sonho e trabalhar par torná-lo realidade.
Não foi uma única coisa mas diversos fatores que me ajudaram a realizar o feito que foi sair literalmente do conforto do meu lar e morar em outro lugar.
Primeiro eu tive que acreditar no impossível porque na época que eu decidi mudar de país eu era estagiária e universitária então a grana era muito curta e vindo de uma família humilde se eu quisesse realizar este sonho eu teria que lutar e bancar sozinha por ele. Fiz muitos sacrifícios para economizar o dinheiro e quando sai do Brasil tinha exatamente 200 dólares na minha mão.
Segundo eu me dediquei para conseguir tudo o que eu precisava para viajar. Pesquisei opções, procurei informação e fui sincera comigo quanto às minhas possibilidades. Nunca dei passos maiores que as minhas pernas e todos os passos foram calculados e estava meio que preparada para os riscos de cada opção.
Terceiro dividi meus sonhos apenas com pessoas que me apoiavam e acreditavam em mim. Para se ter uma ideia minhas irmãs só souberam que estava indo para os EUA quando o meu visto estava em mãos, depois de quase 1 ano e meio de preparação e planejamento. Lembra do primeiro passo? A situação já era difícil então pra que ter pessoas ao meu redor colocando dúvidas, zombando dos meus objetivos só porque era diferente dos delas?
E por último acredito que seja essencial ter coragem e ser autossuficiente porque muitas vezes você só terá você mesmo para solucionar problemas e enfrentar adversidades.
Depois que você conseguir conquistar o seu "maior feito" não pare de sonhar e não viva somente de memórias. Cada fase da nossa vida há um novo objetivo, sonho a ser conquistado e o mais importante é saborear cada pequena conquista e todas as etapas da jornada porque mesmo que ela seja difícil terá algo a ensinar e trará algo que você irá precisar no futuro ou te fará uma pessoa melhor.

Friday, November 18, 2016

Meu gato que não é meu

Sou o que eles chama aqui de "dog person". Eu AMOOO cachorros, desde que eu me entendo por gente meus pais tiveram cachorros em casa. Tínhamos 4 cadelas que não eram castradas, então já viu... vira e mexe aparecia uma barriguda e era a maior festa quando os filhotes nasciam e até a gente distribuir, era aquela festa de filhote + criança que a minha mãe tanto odiava - bagunça e trabalho em dobro hehehe. Lembro que era a maior choradeira quando alguém iria buscar os filhotinhos, lembro do nome de todos os cachorros que tivemos e quando vou na casa da minha mãe tenho o maior xodó pelos cachorros dela.
Por ser rodeada de cachorros, nunca fui chegada em gatos. Não tenho nada contra eles, mas sou uma pessoa carente e não iria conseguir ter um animal de estimação que não dá a mínima pra mim e só me usa para ganhar comida e um lugar pra viver.
Tenho uma amiga que tem os gatos mais fofos do planeta e a gente se deu muito bem, porque eles parecem mais cachorros do que gatos, no comportamento claro, já que eles ficam em busca de atenção e carinho o tempo inteiro. A minha amiga me ensinou muitas coisas sobre comportamento de gatos, o que está me ajudando e muito agora...
Veja bem, eu tenho um gato, mas o gato não é meu...
Em mais ou menos abril deste ano percebemos que tinha um gato preto pequeno no meu quintal. Nós já tinhamos nos acostumados com um gato cinza sem rabo que anda pela vizinhança, bem mal encarado. Mas nunca tínhamos visto este gato preto antes e achamos estranho...
Um belo dia fui caminhar pela manhã e vi vários cartazes de animal perdido e eu sempre leio porque sei a dor que é perder um bichinho de estimação. Não é que alguém estava procurando um gatinho preto?
Anotei o telefone e liguei mais tarde pra pessoa, dizendo que tinha um gatinho que combinava com a descrição no quintal da minha casa. O cara disse que depois iria buscar pela região - detalhe, ele disse que mora num complexo de apartamento que fica literalmente 1 quadra da minha casa. Ok.
O gato aparecia sempre de manhã, eu liguei pro cara 2 vezes pra ele fazer um flagrante e nada dele aparecer. Até que um sábado o meu marido tirou uma foto com o celuluar do gato, mandou pro cara e ele confirmou que era realmente o gatinho dele e que dali a dois dias ele iria dar uma olhada na região pra ver se encontrava.
Olha, eu fiquei bem brava porque quem é que coloca um cartaz pedindo pra achar um bichinho e quando você manda informações de onde o gato está a pessoa não vai procurar? Ele oferecia 50 dólares de recompensa e sinceramente eu não queria o dinheiro, só que ele pegasse o bichinho e levasse pra casa.
Pois bem, ele nunca apareceu e eu morrendo de dó comecei a jogar pão de forma pro gatinho comer. A princípio estava bem arisco, mas acho que estava com tanta fome que começou a esperar perto da porta por alguma comida.
Foi então que contra a vontade do meu marido - que é super alérgico a gatos - eu fui até uma pet shop e comprei um pouco de ração e um potinho de comida e comecei a alimentar o gatinho...
Desde então vem todos os dias de manhã e de noite pra comer, mas não se aproxima de nós de jeito nenhum. Por mais que não corra mais de medo, só vai comer a comida depois que fechamos a porta da cozinha.
A verdade é que eu pensei em ligar para alguma associação pra vir buscar, mas sei que tem algumas que acabam sacrificando e eu decidi continuar alimentando o bichinho. Só que agora está começando a ficar muito frio à noite e eu estou preocupada com o gatinho novamente. Já fiz uma caminha, mas se recusa a entrar. O meu marido disse pra eu não me preocupar, mas fico morrendo de dó.
De vez em quando sai briga com o gatinho mal encarado, já que os dois querem marcar território, mas a gente torce pelo gatinho, que na verdade é uma gata e se chama Jelly (gelatina) mas a gente acostumou de chamar de Gatinho.
O meu marido também acabou se rendendo e sempre dá comida e fica conversando com o Gatinho, mesmo que ela não dê bola pra gente e só quer saber da comida.
Nem se a gente quisesse poderíamos colocar pra dentro de casa porque não sabemos se carrega alguma doença, pulga e eu com problema no sistema imunológico não sou aconselhada a ficar muito próxima de gatos.
Dá dó. Mas por enquanto vou fazendo a minha parte. De fome eu sei que ela não morre.
Gatinho esperando pelo café da manhã

Tuesday, November 15, 2016

Precisamos falar de eleições ?

Há uma semana o povo americano (em teoria) escolheu o novo presidente do país. Digo em teoria porque aqui existe um sistema de eleição bem diferente do que nós conhecemos no Brasil.
Pra resumir a história o sistema funciona mais ou menos assim: cada estado americano possui um certo número de delegados no colégio eleitoral que varia de acordo com o número de representantes do Senado e Congresso de cada estado. A Califórnia por exemplo tem 55, Texas 38, Florida 29, e assim sucessivamente. O total de delegados é de 538 e para ser eleito, o presidente precisa de no mínimo 270. O interessante é que o candidato que tem a maioria dos votos na maioria dos estados recebe todos os números de delegados daquele estado. Aqui na Califórnia a Hillary ganhou a maioria dos votos então ela levou os 55 delegados do estado. Por isso,  embora ela tenha ganhado a maioria do voto do povo (em números) ela não foi eleita porque ela perdeu em porcentagem para o Donald em alguns estados chaves que tinha um número grande de delegados em jogo e portanto, mesmo que quase metade da população daqueles estados tenha votado nela, todos os "votos" acabaram indo pra ele.
Número de delegados do colégio eleitoral por estado

Entendeu como funciona? Pois é, é complicado mesmo... Este sistema é muito diferente do que entendemos como democracia já que o voto do povo basicamente não conta individualmente porém ouvi discussões de que o sistema funciona para garantir que os estados com maior população não definisse o resultado final das eleições já que se fosse por maioria dos votos os candidatos iriam se concentrar apenas nos estados mais populosos ignorando os menores, não representando assim o povo americano...
Este é um dos principais motivos pelo qual está acontecendo até agora em alguns lugares no país protesto sobre as eleições, porque a maioria das pessoas no país que votaram (apenas 58.1% da população que poderia exercer este direito o fez)*, não votou no Trump.
Resultado eleições CNN até o momento**

Passei a noite acordada com o meu marido acompanhando os resultados otimistas a princípio e indo de preocupada para incrédula em questão de algumas horas. Na minha casa foi o mesmo sentimento de incredulidade e decepção quando acompanhamos o resultado do Brexit em junho, mas pra falar a verdade, depois que o Reino Unido votou para se separar da União Européia nós sabíamos que o impossível poderia acontecer novamente.
Estávamos acordados quando o Trump deu o discurso de vencedor e preciso confessar que não consegui prestar muita atenção no que ele dizia pois o filho menor dele roubou a cena, tentando ficar acordado enquanto o pai falava quase 3 horas da manhã horário NYC.
No dia seguinte foi difícil acordar com a notícia de que não tinha sido um pesadelo e que a pessoa que durante os últimos 2 anos fez inúmeros discursos cheio de racismo, intolerância e ignorância tinha sido eleito presidente dos EUA. Não queria nem ir pra faculdade tamanho era o meu desânimo, a vida precisava continuar...
Não foi surpresa chegar na faculdade e o clima estar super pesado e todos muito tristes e revoltados. Embora não tenha discutido sobre política nas minhas classes os professores deram palavras de ânimo para todos, mas podia ver que eles também estavam decepcionados.
Alguns amigos preocupados me enviaram mensagens me perguntando o que será daqui pra frente, e esta resposta ninguém sabe responder porque ninguém tem idéia do que o Trump fará durante o seu mandato. O certo é que muitos americanos apesar de dizerem que não são racistas, homofóbicos, intolerantes religiosos e anti-imigrantes, votaram no Trump porque ele trouxe uma mensagem de esperança (????) e mudança para o país.
Enquanto isso mulheres, grupo LGBTQ, muçulmanos, imigrantes indocumentados, negros estão muito preocupados porque algumas idéias lançadas pelo candidato os afetam diretamente.
No momento o que tenho tentando fazer é não me deixar abater e pensar em formas concretas de poder fazer a diferença na comunidade em que vivo e é isso que no geral as pessoas estão sendo chamadas para fazer. Proteger o direito de todos e não se calar diante de atos de intolerância.
Todos agora estão tentando passar um sentimento de que devemos nos unir para construir um futuro melhor para o país, deixar nossas diferenças políticas de lado e caminhar rumo ao futuro, mas é um pouco difícil fechar feridas de tantas pessoas que foram atacadas e insultadas pelo Trump e alguns de seus apoiadores durante os últimos meses.
Acho que esta foto, o primeiro encontro entre o presidente Obama e o presidente eleito Donald Trump resume bem o sentimento por aqui...
Encontro do Obama e Trump na Casa Branca 2 dias após a eleição

Curiosidades:
  • os votos aqui podem ser enviados pelo correio antes da eleição e as pessoas precisam até a urna escrever o voto em um PAPEL. Não é falta de tecnologia não, é que é um mode de evitar fraude já que os votos podem ser contados e recontados e tricontados... 
  • não é preciso mostras documento de identidade para votar (eu também choquei com esta informação!)
  • voto não é obrigatório 
  • a contagem de votos oficial não foi terminada.

Agora, eu peço, por favor Brasil não me decepcione novamente em 2018 e aprendam a lição!



Fontes:
* http://www.electproject.org/2016g
** http://www.cnn.com/election/results/president

Monday, October 24, 2016

O dia que a professora de espanhol quase enfartou em classe

Só percebi hoje que faz um mês que não atualizo o blog. E não é falta de assunto, é aquela velha história falta de tempo mesmo. Depois que voltei do Brasil já engatou-se uma reforma na cozinha da minha casa e o início das aulas e só agora me organizei.
Estes dias na faculdade estava pensando em escrever um pouco mais sobre vida de estudante por aqui, vai que alguém está precisando de um esclarecimento porque te digo que mesmo neste meio há 4 anos, tem muita coisa que não entendo... mas enfim...
Hoje aconteceu o pesadelo de qualquer professor de idiomas na minha sala de espanhol. Existem muitos nativos de espanhol na minha sala (ou eles cresceram falando espanhol em casa mas não aprenderam gramática ou então só querem ganhar crédito fácil do requisito língua estrangeira) e estamos em uma semana de apresentações sobres diversos temas.
Pois bem, hoje o tema era sobre a vida universitária de alguns países latinos. Aí uma menina que fala espanhol porque os pais são mexicanos foi apresentar uma sessão sobre gírias utilizadas no México e no Chile.
Pois bem, acho que ela não passou o material da apresentação para a professora e esta quase teve um enfarto quando a primeira gíria que ela apresentou foi "corno" referindo-se a qualquer homem. A professora deu um pulo da cadeira e disse que ela não podia nem pronunciar a palavra porque aquilo não significava homem e sim "um cara que tem uma mulher que dormiu com outro cara". Eu não conhecia a palavra mas quando a professora deu o significado, eu quase não consegui parar de rir. Maioria da sala ficou confusa e uma parte de pessoas que falam espanhol ficaram em dúvida do motivo do chilique da professora, já que eles também usam a palavra entre amigos e não sabiam que o termo era ofensivo.
Fiquei com dó da professora e da menina que apresentou que é um amor de pessoa e super certinha. Nos encontramos na saída da faculdade e ela me falou que a professora a chamou de canto e disse pra nunca mais aprensetar nada sem passar por ela, e foi uma grande surpresa porque ela disse que todos os outros mexicanos amigos dela se chamam assim.
Então um conselho pra você que está aprendendo idiomas, antes de sair por aí soltando o verbo, melhor verificar o real significado da palavra e saber se é um termo ofensivo para algum grupo ou não.
Mas que foi engraçado, foi...

Friday, September 23, 2016

São Paulo

É só marcar viagem ao Brasil que começo a ter crise existencial.
Semana passada assisti vários vídeos no youtube de estrangeiros que foram visitar São Paulo e contam suas experiências e o quanto a cidade é linda, cheia de cultura, boa comida, com transporte ótimo e com pessoas amigáveis. Uma mulher até disse que não gosta de conversar com brasileiros que tem uma visão negativa da cidade porque tudo lá é lindo e não damos valor.
Respeito a opinião destas pessoas, mas vamos concordar que a experiência de um turista na cidade é bem diferente de alguém que mora lá e tem que acordar cedo pra pegar busão pra ir trabalhar e não tem muito dinheiro pra sair "desfrutando" das belezas e coisas boas da cidade...

*-*- *-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

Comecei a escrever este post um tempo atrás e resolvi que estava na hora de sacudir poeira daqui.
Há uma semana retornei de São Paulo, uma viagem rápida só para ver com os meus próprios olhos como estava a saúde da minha mãe e a situação do país. Acho que foi a primeira vez que quando o avião decolou de Cumbica eu chorei de soluçar. Até agora estou tentando entender o que estava sentindo naquele momento, era um misto de alívio e tristeza, revolta e esperança.
Se encontrasse um destes turistas que mencionei aí em cima, juro que dava uma sacudida na pessoa. As coisas por lá, como quem mora aí no Brasil deve saber, não está fácil pra ninguém.
Aconteceu o impeachment, agora o Lula parece que vai ser investigado por corrupção, o Cunha perdeu o cargo. Foi um bom começo mas ainda não ajudou no clima de pessimismo e principalmente preocupação das pessoas.
Tive 2 amigos que perderam o emprego, e os outros que conversei estavam preocupados com a situação da empresa e estão trabalhando por 10 sem reclamar por conta do medo do corte. Ida ao supermercado é quase uma ida a uma sessão de filme de terror: um susto cada vez que se olha os preços das coisas...
A minha mãe está indo em 3 postos de saúde diferente para poder pegar os remédios que ela precisa tomar. Agora ela toma insulina e recebeu o remédio gratuitamente, só que só deram pra ela 10 agulhas para durar 30 dias (lembrando que são de uso único e descartáveis). Dá uma revolta muito grande mesmo porque se não houvesse a maldita corrupção no país a vida de milhões de brasileiros seria muito melhor.
Sempre aproveito os momentos que estou no Brasil para observar e perguntar. Percebo o quanto as pessoas estão mudando aos poucos de atitude, comportamento e o quanto a tecnologia está cada vez mais presente. Está longe de estar perfeito, mas são pequenos progressos.  Vi ônibus com duas catracas e achei a idéia genial, assim não se perde tempo esperando as pessoas entrarem no ônibus. Achei interessante que alguns ônibus tem tomada USB para recarregar celular. Isso a gente NÃO encontra aqui. Continuo dizendo que sou fã da rede de transporte público da cidade, mas que já passou da hora de dependermos tanto de carros e ônibus para nos locomovermos. O metrô foi muito eficiente para a minha ida com o meu pai até o Corinthians Itaquera pra assistir jogo e retornar pra casa. Sério que em 1h45min nós atravessamos a cidade e um percurso de 73km, só demoramos isso porque nosso último meio de transporte era um ônibus que demorou uns 10 minutos pra sair do ponto final. O meu marido ainda sonha com o dia em que vamos pegar o metrô no Capão Redondo e chegaremos na Santa Cruz, quando a linha lilás do metrô for concluida. Eu tento explicar pra ele que demorou mais de 10 anos para construir uma estação, mas este conceito pra ele é incompreensível. Quem dera que todos pudessem usar mais metrô com segurança e qualidade né? Facilitaria e muito a vida dos paulistanos. Talvez seja um pouco da mentalidade dos moradores também, enquanto eu faria quantas baldeacões fossem necessárias para chegar rápido, a minha mãe por exemplo nunca lembrava de pegar metrô pra nada e por causa disso ficamos paradas num congestionamento gigantesco na manhã que choveu na cidade. Porque a cidade ainda pára quando chove...
Mas no meio do caos e da instabilidade econômica e política as pessoas ainda mantém alegria. Acho que se não fosse assim, como é que a gente conseguiria acordar todos os dias né? Mas acho que tem a questão de colocar o band-aid ou continuar seguindo a vida porque você não tem esperança de que pode fazer algo para mudar. Ouvi um pouco sobre os candidatos a prefeitura da cidade e são sempre as mesmas figurinhas, pra ser sincera se eu tivesse que votar, não teria a menor idéia de quem escolher. Foi bom receber calor humano e visitas inesperadas (e as vezes um pouco incovenientes), ser mimada pelos meus pais e poder brincar com os cachorros. Ouvir a minha sobrinha planejando o aniversário de 9 anos e ficar feliz pelo simples fato de eu estar ali ao lado dela desenhando. Comida fresca feito em cada ou requentada do dia seguinte, mas comida feita com muito amor (e sal) que faz uma falta grande aqui. No sábado antes de retornar fiquei observando a minha família com novos membros sentados à mesa e o mais importante ali não era o almoço e a comida não era nada especial mas sim as risadas e todo mundo falando ao mesmo tempo e querendo dar pitaco e dividir histórias e reclamar das injustas multas de trânsito e a falta de educação dos guardinhas da CET.
Esta última visita mexeu comigo porque acho que finalmente entendi que por mais que esta não seja mais a minha realidade, eu sei como as coisas funcionam e já experimentei todas estas angustias e preocupações e por isso consigo entender as preocupações e frustrações da minha família e amigos que continuam morando lá, mas para eles é um pouco mais complicado entender a minha vida aqui e os problemas que passo por aqui porque no conceito dele eu moro no paraíso e não posso reclamar de nada porque as coisas são piores por lá. O que é verdade, mas não é fácil viver numa cultura diferente, com língua e costumes diferentes. Voltei sentindo-me que enquanto não pertenço totalmente aqui, também não pertenço lá. E isso machuca demais o coração e é difícil de explicar.
Seria ótimo juntar as partes boas dos dois lugares, aí sim a vida seria perfeita, mas enquanto isso não é possível eu escolho as partes boas da Califórnia e tento lidar com os aspectos ruins. A gente nunca sabe o rumo que a vida irá tomar e quero aproveitar ao máximo o presente, porque o futuro é incerto em qualquer lugar do mundo e quem sabe pra onde a vida vai me levar?

Monday, August 22, 2016

Dicas sobre trabalho no Vale do Silício

De vez em quando recebo mensagem de pessoas perguntando sobre o mercado de trabalho aqui na região.
Estou sem trabalhar há alguns anos por conta da faculdade e problemas de saúde, mas gostaria de dar algumas dicas para quem tem curiosidade de saber um pouco sobre o mercado de trabalho daqui.

Nos EUA não existe lei trabalhista que oferece direitos e deveres a todos os empregados como no Brasil. Benefícios variam muito de empresa para empresa e isso acaba sendo munição de grandes empresas para atrair talentos. As informações que colocarei aqui são bem gerais e experiências que tive no mercado formal e informal e também o que observo das pessoas ao meu redor.
  •  Se você não tiver permissão para trabalhar legalmente nos EUA, como visto de trabalho, cidadania ou green card, as chances de conseguir um trabalho em uma grande empresa são quase abaixo de zero.
  • Salário é oferecido por ano, ou seja, quando você é contratado a empresa vai dizer que você receberá 36 mil dólares, isso significa o seu salário bruto do ano inteiro, ou seja, o que você vai receber mesmo é esta quantia dividida por 12 (3.000 por mês salário bruto). Este valor é claro, terá discontos de imposto de renda e sua parte em seguro de saúde. O valor do salário líquido depende do estado em que você mora, pois tem que pagar imposto federal e estadual. Portanto, não fique deslumbrado com uma quantia grande de salário oferecida e não compare a quantia em reais - o custo de vida é alto por aqui.
  • Não existe décimo terceiro. Algumas empresas oferecem bonus para os empregados dependendo dos lucros da empresa e por desempenho individual, tudo isso é acertado na contratação.
  • Você assinará um contrato dizendo suas responsabilidades, benefícios e salário. Aqui eles chamam emprego "at will", ou seja, a qualquer momento este contrato pode ser terminado por qualquer das partes. O aviso prévio geralmente é de 2 semanas.
  • Férias geralmente são em dias úteis e variam de 5 a 10 por ano. Sim, POR ANO! Pra eles férias de 30 dias pagas é coisa de gente preguiçosa (já ouvi isso de um colega) e você ficaria surpreso de saber quantas pessoas não tiram férias e acabam perdendo - dias não tirados não são pagos como no Brasil e expiram depois de um certo tempo.
  • Licença maternidade é de 6 semanas. Não existe licença paternidade - De novo, muitas empresas estão mudando esta regra para atrair talentos, mas este é o normal oferecido.
  • Se você ficar doente e faltar no trabalho, você pode tirar 3 "sick leave" no estado da Califórnia, o que passar disso você tem que tirar os dias das suas férias! 
  • Se a doença for grave, você pode pedir licença não-remunera por um determinado período. Isso vale também se você tiver que cuidar de um membro da família doente
  • Almoço geralmente é um lanche rápido na mesa ou numa salinha dentro do escritório. Algumas empresas oferecem restaurante, mas você paga pela comida e geralmente almoço não demora 1h
  • Se você não for um alto executivo ou trabalha com vendas, possivelmente vai usar trajes mais informais, principalmente aqui no Vale do Silício
  • O QI (Quem Indica) é muito forte por aqui, por isso as pessoas estão sempre fazendo networking. Geralmente se um empregado indica um bom candidato que é contratado e permanece na empresa após o período de experiência, ele recebe um bonus. Por isso as pessoas tem muito cuidado em quem indicam e os melhores postos sempre acabam sendo preenchidos desta forma
  • Existem vários sites para procurar emprego, mas muitas empresas e também recrutadores usam o LinkedIn. Importante fazer um perfil profissional e correto, colocar uma foto profissional. O site também contém muitas vagas de empregos. Já fui contactada 2 vezes por grandes empresas através do LinkedIn.
  • Muito importante ter um currículo verdadeiro e enxuto e sempre escrever uma carta de apresentação para cada vaga que você aplicar. Não existe a idéia de ter apenas um currículo para várias vagas, geralmente um candidato tem um currículo específico para salientar qualidades para a vaga em questão
  • É muito comum a primeira entrevista ser feita através do telefone. Tente passar um telefone fixo ou atenda o seu celular num lugar tranquilo. Algumas empresas também utilizam videoconferência, skype, FaceTime para a primeira entrevista
  • O processo pode ser longo por isso não desanime. Dependendo do cargo pode acontecer até mesmo 3 entrevistas diferentes.
  • Existem muitas oportunidades para empregos em tempo integral mas também meio-período em todas as áreas.
  • Salários também podem ser pagos por hora e o mínimo é estipulado por cada cidade, aqui na região varia de 9 a 10 dólares. Geralmente empregos de meio-período são pagos por hora e variam muito dependendo da posição
  • Para encontrar empregos informais, procure no bom e velho Craiglist, Indeed também oferece várias posições. O bom e velho Google sempre ajuda também.
  • Algumas empresas terceirizam várias posições, então você pode se cadastrar numa agência de emprego e eles te mandam para um determinado cliente (empresa) por um determinado período ou para uma posição permanente. Gigantes como Facebook e Google fazem muita terceirização de serviços, principalmente no administrativo. Você envia currículo e faz entrevista para a empresa terceirizadora e eles tentarão encaixar você em projetos atuais ou futuros que apareçam
  • É muito comum trabalhar em casa, mas tome cuidado com empregos que prometem muito dinheiro por pouco trabalho de casa, geralmente são golpes principalmente se você tem que pagar uma taxa para se colocar no programa. Fique alerta e use sempre pesquise a empresa no Google!!!
  • Vale salientar novamente que grandes empresas exigem sempre que o candidato tenha visto ou permissão de trabalho nos EUA e todas as empresas irão pedir o número de Social Security (o CPF daqui) para poder deduzir os impostos devidos da sua folha de pagamento. Falsidade ideológica é crime sério aqui, principalmente evasão de impostos por isso tome cuidado com a tentação de apresentar documentos falsos para conseguir um emprego, pode arruinar a sua carreira (e vida). 
  • Todas as empresas checam referencia de empregos anteriores e também pessoais. Algumas pedem antecedentes criminais e dependendo da função como motorista por exemplo, exame para saber se a pessoa usa drogas.
  • Independente da sua situação imigratória, jamais permita que alguém te explore. Existem leis para proteger trabalhadores de diversos tipos de assédio: moral, sexual, verbal. Isso é sério! Empregadores podem usar seu medo para tentar te explorar, mas não aceite esta condição e denuncie! Se não quiser entrar em contato com a polícia local, entre em contato com o consulado brasileiro e peça ajuda
  • Jornadas de trabalho de 10, 12 horas são comuns por aqui, infelizmente. As pessoas vivem para trabalhar e não o contrário.
  • Colegas de trabalho serão colegas de trabalho. Geralmente eles não misturam muito vida pessoal com profissional. Seus colegas podem ser uns amores no escritório e fingir que não te conhece quando estiver com sua família e te encontrar no mercado. Aconteceu com meu marido...
  • Assédio sexual é muito sério! Geralmente relação amorosa entre  subordinado e chefe  é proibida pois as empresas temem que o subordinado seja vítima de assédio sexual e há sempre uma linha muito tênue entre romance e um futuro processo por assédio. 
  • Piadinhas racista, homofóbicas, preconceituosas, machistas e religiosas podem custar seu emprego por justa causa.
  • Se você trabalha de autônomo, não esqueça de declarar imposto de renda! Pente fino aqui é coisa séria e é a única coisa que vai com certeza te levar pra cadeia é sonegação de imposto.
Estas foram as dicas que vieram a minha mente no momento, mas devo ter esquecido de algo com certeza. No fundo, no fundo, trabalho é igual em todo lugar do mundo

Tuesday, August 16, 2016

Falta muito pras Olimpíadas terminarem?

Pode fazer cara feia e julgar, eu não me importo. Não vejo graça em Olimpíadas. Tento assistir as cerimônias de abertura e de encerramento porque é um show sempre, mas não fico colada na televisão vendo jogos e torcendo fervorosamente para qualquer coisa que esteja passando na televisão.
Aliás, acho que o meu espírito olímpico morreu de vez este ano com a palhaçada que é a transmissão do jogos aqui nos EUA. Só um canal tem os direitos de imagem e acreditem ou não nenhum jornal de nenhuma outra emissora pode passar vinhetas dos sports. Para poder assistir a transmissão ao vivo da abertura eu tive que usar serviço de VPN e ver online por uma emissora britânica. A transmissão aqui na Califórnia só começou literalmente quando estava terminando a cerimônia no Brasil. E cheio de comerciais e cheio de comentários idiotas de quem não sabe o que falar mas tem que encher linguiça pra audiência.
Os jogos raramente são trasmitidos ao vivo e claro, a prioridade é sempre mostrar os atletas bam-bam-bans daqui dos EUA.
Acho que desde o começo de julho conscientemente não digo que sou brasileira em conversas, porque todo mundo quer saber o que eu acho das Olimpíadas acontecendo no Brasil, se o Rio estava preparado, se lá não era violento, blábláblá. Ninguém claro, me perguntou sobre a situação política do país, da presidente eleita estar a beira de ser impedida de exercer sua função e ser abolida por bons anos da política brasileira.... O importante é saber quantas medalhas "seus" atletas estão colecionando...
Pra mim não faz sentido algum sentar no meu sofá, comendo besteira e assistir atletas profissionais praticando esportes e ver que um dos patrocinadores oficiais do evento é a Coca-Cola (coisa mais saudável do mundo né?).
Mas claro que não fiquei imune e assisti e li algumas coisas interessantes e queria fazer alguns comentários.
  • Gisele, te dedico! Como pode ser tão linda e atravessar um estádio inteeeeeeeiro desfilando? Só pra quem pode né?
  • Anitta devia ter ficado em casa, o que aquela mulher tem a ver com o Caetano e o Gilberto? 
  • Eu lembro poucas coisas do desfile das nações, mas acho que nunca vou esquecer que existe um país chamado Tonga e do cara que levou a bandeira. Vocês sabem de quem estou falando né?
  • Claro que eu peguei briga no Twitter com vários americanos reclamando que eles estavam no meio do desfile e que foram chamados de Estados Unidos da America! Que audácia a nossa! Mas acho que eles ficaram p. da vida porque ligaram a TV no final pra ver o país deles e já tinha passado. Engraçado que nunca ouvi a Alemanha reclamar e dar piti por ser chamada de Germany e não de Deutschland
  • Guga emocionou demais, mas quando vi o Vanderlei Lima acendendo a tocha os meus olhos se encheram de lágrimas. O cara merece, pra mim sempre foi o candidato favorito eu nem tinha pensado em Pelé.
  • E aquela tocha olímpica linda demais. Fiquei inspirada pra colocar um lustre em casa com aquele design.
  • Assisti um pouco de natação (claro com o Phelps em quase tudo que é lugar na TV). Acho que é um dos meus esportes favoritos e me deu uma vontade enorme de voltar a nadar.
  • Assisti os 15 últimos minutos da final masculina de tenis, já que um britânico estava jogando e meu marido quis assistir. Humildade demais do Andy Murray abrançando o argentino. E eu vi que ele quebrou a estátua que deram pra ele de presente e ele tentou esconder no bolso. hehe
  • Aqui só se fala daqueles nadadores que foram assaltados no Rio. Muita dó deles, mas aquele imbecil americano confrontar alguém com uma arma na cara? Graças a Deus que está vivo, mas de novo só se fala o quanto o Rio é perigoso, blábláblábláblá
  • Vi também o Diego Hypolito e o outro brasileiro ganharem medalha na ginástica olímpica. Muito emocionante. :-)
  • A coisa mais emocionante e bonita foi ver a foto das duas coreanas tirando selfie juntas, esperança de que um dia a Coréia do Norte e do Sul se unam novamente.
  • E por falar em foto, gente me diz como é que o Bolt consegue sair sorrindo, dando joinha na foto enquanto ele corre mais rápido do que o Papa-Léguas?
Ok, chega. Pra quem não ia falar de Olimpíadas, até que eu me empolguei. Só espero que todo o investimento neste evento tenha algum tipo de retorno pro nosso país e pro nosso povo. Os esteriótipos continuam rolando solto por aqui, nisto nada mudou. Espero que pelo menos os jogos inspirem a todos a ter uma vida mais saudável, assistir menos e praticar mais esportes.